Sabores

Sabores amargos nem sempre atendem às nossas expectativas. Escrevo esse texto enquanto voo de Bogotá a Madri, numa jornada de algumas boas horas ainda (8:55 no total). Escuto Simon and Garfunkel (Concert in Central Park), que canta uma música (não me lembro o nome) sobre New York. O avião balança um pouco, apesar do piloto dizer que o voo será tranquilo. Talvez o balanço seja porque estou na poltrona 35J, ou seja, na cauda do avião. Tudo bem, eu gosto de turbulência (menos quando tenho comida ou bebida à minha mesa).

Sabores amargos e inesperados

Por que que resolvi escrever durante o voo, ao invés de ler o livro New New Media, como havia prometido? Porque antes de abrir meu iPad estava lendo o La Vanguardia (a Carolina Campalans iria adorar esse jornal como “regalo”) e, entre tantas notícias tristes sobre esse país pelo qual tenho tanto apreço, li duas coisas que realmente me deixaram triste: o suicídio que virou moda entre os devedores de hipoteca antes do despejo e a demissão de 25% do quadro de funcionários da Ibéria, ou seja, uma porrada em 5 mil trabalhadores de uma vez.

A história do suicídio meu “hermano” Alfredo Caminos já havia me contado há algumas semanas. Disse ele que somente os veículos locais falavam sobre o problema, enquanto TVE e El Pais, por exemplo, limitavam a pequenas informações. O mais triste é que são pessoas à beira de um desespero irreversível em alguns casos. São cidadãos que trabalhavam, confiaram o Euro. O projeto dizia alimentar aos sonhos de todos os países da zona “estrelada” em igualdade. Agora separa os filhos legítimos dos ilegítimos (de maneira cruel). O cidadão vai e se mata. Ao menos não sobram as dívidas, a fome e a vergonha.

Sabores amargos na Ibéria

Já a história da Ibéria foi algo momentâneo (e que vai durar, certamente, todo o voo). Recebi o jornal com a noticia na capa, das mãos de um funcionário da Ibéria. Contei, e pelos corredores estavam circulando quatro comissários de bordo. No final do ano ou no começo de 2013, um deles provavelmente será demitido. E provavelmente não conseguirá pagar a hipoteca de sua casa. Deve ser despejado. Será que vai cometer o suicídio? Além disso, no avião estão trabalhando dois pilotos e, acho, um auxiliar de voo (isso ainda é comum em voos de longa distância). A porcentagem de cortes previstos entre pilotos é de um em cada três, ou seja, um deles deve ser demitido junto ao comissário de bordo, também deixar de pagar a hipoteca e, talvez (tomara que não) se suicidar.

sabores
Foto: Denis Renó

A Ibéria marcou muitos dos meus voos. Espero seguir com eles.

Ambos podem ser notícia nos jornais locais da Espanha, mas certamente não ilustrarão a TVE ou o jornal El País, que acaba de demitir vários jornalistas. O jornal até enfrentou uma paralisação da redação, fazendo com que o veiculo perdesse um dos principais valores de um jornal: a periodicidade. Por isso aquele papel cheio de letras e fotografias chama-se periódico.

Quase no fim

Termino esse texto porque a minha comida está chegando, e está bem cheirosa (ainda que minha esposa não concorde, comida de avião é gostosa). Sentei nas primeiras filas da aeronave, e seguramente serei um dos primeiros a receber a comida.

Termino com alguns sabores em minha boca, amargos, e que farão essa comida descer meio seca. O que será da Espanha? Que futuro terão meus amigos queridos que lá vivem? Não sei. Espero, entretanto, que tudo volte a ser como era. Espero que a Espanha volte a brilhar, dessa vez por conta própria e sem depender das estrelas da zona Euro.

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